Cape Verde Islands

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 Assunto da Mensagem: Cretcheu di cachupa
MensagemEnviado: quarta mar 22, 2006 6:53 pm 
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<font color=white> Uma delícia o texto,da receita nem se fala,come-se.Tirado de um blog fantástico da <u>Diotima</u>.Aconselho que passem por lá.

Cretcheu di Cachupa*

Como todos os amores, a cachupa é um prato que se cozinha lentamente, com muita paciência, esmero e alguma dose de imprevisto, ou seja, há que adivinhar-lhe e experimentar-lhe o gosto. Eu não sou das ilhas, nem nunca senti o cheiro da terra árida, mas consigo imaginá-la só pelo saber dos temperos, da música e do álcool. E se assim é, é porque a cultura da terra é tão forte que se faz perdurar na cabeça dos continentais.Pensei na minha cachupa para o almoço de domingo, em que toda a família, pais, irmãos e sobrinhos se juntam com mais nenhum propósito sem ser celebrar, de facto, a comida e a bebida, e através dela os laços que nos ligam. Foi um almoço daqueles que pedem uma sesta redobrada e tanto assim é, que só o consigo descrever agora.Para este prato tão afectivo, que pressupõe uma verdadeira paixão pela comida, há que começar a preparar tudo com cinco dias de antecedência, como quem adivinha um grande encontro de amor. As carnichas do bácoro - chispe, entremeada, entrecosto - salgam-se em casa cinco dias antes. Poderia dizer-vos que o truque da cachupa reside no amor pelos preliminares, pois deles depende a satisfação total dos comensais. Garanto-vos, com um certo orgulho, que não há nada que me dê mais prazer do que deter-me demoradamente a lavar e a preparar um bom chispe, carnudo e rosado. Faço-lhe, a ele e às outras carnes mencionadas (a cachupa é um laudo à poligamia), uma caminha confortável de sal, num recipiente largo, e ainda os cubro em larga medida com a pedra filosofal. Os bichinhos vivem assim dias de larga intimidade no fundo do frigorífico, onde absorvem o alquimista e trocam fluidos entre si. Na véspera, acaba-se o festim para o bácoro. Está na altura de lavar, novamente, o porquinho, e é vê-lo com outras cores, retemperado dos seus dias felizes. Costumo pô-lo de molho um dia inteiro, com várias águas, pois o bicho vem tão apaixonado que pode dar conta também dos nossos corações. Ele é importante, mas convém não haver grande protagonista, pois para mim, o milho é rei. Estes grãozinhos de milho - milho cojido, que já sofreu os tratos do pilão - vendem-se em toda a parte, até nos supermercados, embora eu compre na rua do Arsenal os mais saborosos de todos. Coloco-os de véspera, com a favona - um belo e enorme feijão branco com olhinhos bonitos nas pontas -, de molho. O efeito da água nos grãos é afrodisíaco: duplicam de tamanho! No dia, há autênticos rituais que me dão gozo a cumprir: acordar cedo, tomar banho, pôr um avental e atar os cabelos. Disponho de tudo na grande mesa da cozinha, porque não me quero esquecer de nada. O milho e o feijão cozem-se numa grande panela de pressão cheia de água, cerca de uma hora, e acreditem que não é um exagero. É de abusar da água, porque vamos utilizar o caldo e no amor os líquidos não podem ser tabu. Noutro bico de fogão, cozo as carnes: porco, vaca, um pedaço de frango para quem gostar, chouriço, farinheira, e toucinho fumado. Aqui há um desvio ao tipicamente caboverdiano: eu gosto muito de cozer as carnes com um grande ramo de hortelã, para que fiquem cheirosas para o grande encontro. Cozidas as carnes, trincham-se com grande alarido e prazer, e em carreirinhos, como se todas tivessem à espera da sua vez. Para saber se o milho está pronto, só mesmo sujando a boca para testar a sua consistência. Aqui faço uma pausa para cozinhar outra delícia que vos contarei no fim. Como estou a preparar o almoço e sou a anfitriã, opto por um gin tónico como companhia, porque o vinho antes da uma da tarde transforma-me numa mulher ociosa e perversa. Voltando ao que interessa, pois a procissão ainda vai no adro, há que deter-me na pedra de toque de qualquer prato: o refogado. Numa frigideira grande, abuso de três grandes cebolas, cortando-as aos cubinhos. Só não pareço uma carpideira, porque estas choram sem verter lágrimas e a mim acontece-me o contrário. Às cebolas, junto três dentes de alho, duas folhas de louro - avé Aquiles - três malaguetas, que cá em casa gostamos de sabores quentes, e vários grãos de pimenta branca. Atenção que a pimenta tem mesmo de ser em grão. Salpico tudo com uma grande colher de sopa de colorau e adiciono, finalmente, a banha, pois nas ilhas azeite é coisa de ricos. Há que respeitar os costumes, não tentem fazer de outra maneira. Refoga-se tudo sem deixar as cebolas ficarem muito escuras e deita-se o refogado para dentro da grande panela, que estará com muita água da cozedura do milho e da favona; esta água adquire um aspecto gelatinoso em virtude da goma deitada pelos protagonistas. Olho para o relógio e tenho mais meia hora. Descasco bastante batata doce, o meu tubérculo de eleição, e muita mandioca. Convém começar pela mandioca. O truque está em lavá-la e cortá-la às rodelas ainda com casca. Depois é só colocar a ponta da faca entre a casca e o tubercúlo - esta fronteira é visível a olho nu - e ela sai inteira e com muita facilidade. Estando tudo lavado, sem roupa e aos bocados, é só mergulhar no nosso copioso caldo divino, que entretanto já levou a sua dose de sal, que convém sempre saborear e aferir. Não costumo mexer, porque a mandioca costuma partir-se e antes de ser servida gosto de tirar-lhe o "caroço", aquele veio amargo e duro que é a sua espinha. Vinte minutos depois, a cachupa está pronta para receber a sua amante, que é como quem diz, pronta para o amor. Cinco dias depois, eis que acontece o milagre da carne. Tudo pronto, está na altura de abrir duas garrafas de bom tinto. O paizinho escolheu Pera Manca, e a filha aquiesceu à escolha. Como não? Não era aos 27 que me rebelava contra a sabedoria do vetusto. Sentados os convivas, começou o repasto, que durou boa parte da tarde, num verdadeiro hino ao panteísmo que as coisas boas da vida nos fazem lembrar que é bom viver. Nha Diotima foi louvada.Para vos abrir o apetite, lembro que enquanto os comensais aguardavam, fritei-lhes uns pastéis de diabo dentro, que são uns fritos de farinha de milho, recheados com atum refogado e muito, muito picantes. O segredo está, portanto, no diabo para quem os vai comer. Estes são difíceis de fazer, mas nada que um pouco de persistência não permita. São uns pastéis realmente danados, mas de gostosos, que só de me lembrar cresce-me água na boca.Para a refeição terminar de uma forma genuinamente caboverdiana, faltou o doce de papaia com queijo de cabra, que os convivas já se tinham dado por satisfeitos com a heterodoxia e preferiram o de azeitão, farófias, e o bom grogue de Santo Antão, escondido num lugar recôndito da cozinha, porque a cozinheira não é de se fiar. Não os condeno.Para o final do dia, preparei um cuscus, que faz as delícias da minha mãe e das crianças. Mas isso fica para outras núpcias. Como o que fazer aos restos da cachupa, ou, como dirão os puristas, a verdadeira cachupa, a que se come refogada e requentada, nos dias seguintes, com um grande ovo estrelado por cima.

*Texto publicado em Outubro de 2004, repescado pela fome

Limpem os beiços,
João </font id=white>


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MensagemEnviado: quinta mar 23, 2006 9:00 am 
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Boa João!!! Vais fazer as delicias dos forences....lindo, lindo, lindo!

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Kinas


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MensagemEnviado: quinta mar 23, 2006 10:35 am 
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ADOREI!<img src=icon_smile_approve.gif border=0 align=middle><img src=icon_smile_approve.gif border=0 align=middle><img src=icon_smile_wink.gif border=0 align=middle>


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MensagemEnviado: sexta mar 24, 2006 11:51 am 
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Tou com desejos...disse ao meu marido que tinha vontade de comer cachupa senão o bebe nasce com cara de tacho :))


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MensagemEnviado: sexta mar 24, 2006 1:38 pm 
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Ai a cachupa, ai a cachupa....

Ás 5ªs e 6ªs, no "Espaço CV" - Travessa do Fala-Só, 9 - 1º 1250-109 Lisboa, há CACHUPA e música ao vivo. O preço (ao almoço) é razoavel e é sempre agradável dar um pezinho de dança a meio do dia...

Malakaia <img src=icon_smile_wink.gif border=0 align=middle>


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MensagemEnviado: sexta mar 24, 2006 2:26 pm 
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Ó gente... uma perguntinha... o que significa Cretcheu?<img src=icon_smile_blush.gif border=0 align=middle>


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MensagemEnviado: sexta mar 24, 2006 3:30 pm 
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Obrigada João.... eu tb não sabia, pois pensava que era ...(riam-se à vontade!!!)... cresceu....<img src=icon_smile_blush.gif border=0 align=middle>

Mas ainda tenho algumas dúvidas, preciso do dicionário de crioulo.

Kinas


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MensagemEnviado: sexta mar 24, 2006 4:31 pm 
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Kinas e Petruska,

Há um sítio que tem um dicionário caboverdiano on-line: www_priberam_pt/dcvpo/dcvpo.aspx.

Malakaia <img src=icon_smile_wink.gif border=0 align=middle>


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MensagemEnviado: segunda mar 27, 2006 8:15 am 
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Puxa! Eu já estava viradinha para a parede! Já sei como és rigoroso... obrigada por levantares logo o castigo!!! he he he

Malakaia, obrigada pela dica. Juro que vou consultar o dicionário frequentemente e nunca mais chamar nomes ao "cretcheu"!!!

Boa semana !!!<img src=icon_smile.gif border=0 align=middle><img src=icon_smile.gif border=0 align=middle><img src=icon_smile_big.gif border=0 align=middle><img src=icon_smile_big.gif border=0 align=middle>

Kinas


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MensagemEnviado: quarta Oct 11, 2006 8:29 am 
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Manera, João, esse receitinha sab pa fronta, brother... Agora o River tem um cachupa moda Cabo Verde... Uum! Ma prot sab...
Agora, vamos lá ter uma conversinha, oh PRIMAS!
Cretcheu é a primeira palavra do dicionário criolo, moças... Nha cretcheu!... Lindooooo...
Bem, estão perdoadas, afinal nem todos podemos falar alemão! Eheh!

Poborsky


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MensagemEnviado: quarta Oct 11, 2006 10:53 am 
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Só mais uma pequena achega..."Cretcheu", é a contração das plavras crioulas "crer", ou, em português, "querer", e "tcheu" que em crioulo, significa "muito". Então, "cretcheu" literalmente significa "querer muito". E "nha cretcheu" ("nha" vem de "minha"), significa portanto "minha querer muito", ou...Meu Amôr.


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MensagemEnviado: quinta Oct 12, 2006 7:56 am 
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Grande João, aguardo ansioso esse juramento de bandeira, mas podia ser já este fim de semana, não? É que no sábado é aniversário do River... Eheh! já estás a ver...
De facto as PRIMAS sabem muito e a gente, com a bondade que nos caracteriza, ainda explica... Elas são demais, as danadas... Mas enfim, fica-nos sempre bem, e a ajuda preciosa desse marinheiro Sir Lancelot foi fatal... Mesma para quem estava na brincadeira, aquela explicação "abana"...
Força Homens...

Poborsky


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MensagemEnviado: sábado Oct 28, 2006 4:21 pm 
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<b>alguem me sabe dzr como se dix " nada será esquecido " em crioulo?</b>

helenafigueiras


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MensagemEnviado: segunda Oct 30, 2006 6:05 am 
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Lenna,
essa so o Joao Fernandes, Sir Lancelot, Poborsky ou Zekinha Cretcheu.... lol!Ja cuscaste o dicionario criolo? Pode ser que....
Num faço a mais pekena ideia........ Daki a pouco um deles há-de aparecer por aki para responder à tua pergunta (dificil eheh..)
Nani


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MensagemEnviado: segunda Oct 30, 2006 4:38 pm 
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Ola LENNA eu nao sei bem, porque falar e uma coisa escrever e outra. Mas talves seja qualquer coisa como: (nada) ca ta bai esquecê.
Talvez o Joao possa dar uma melhor dica.
Beijocas ze


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